segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A Volta ao Mundo em 80 Dias

Menos ficção científica e mais aventura. Ainda assim, um dos romances mais brilhantes do literato francês mais importante da história

Um sujeito da alta sociedade londrina (leia-se: inglesa) e o engajamento em uma aposta audaciosa - dar a volta do mundo em 80 dias -, compõem a premissa da aventura A Volta ao Mundo em 80 Dias, romance concebido pelo francês mais lido em todo o mundo, Júlio Verne. (E sim, os humanos lêem mais Verne do que Dumas.) Em meio à crescente urbanização de Paris e Europa, fomentada pela já madura industrialização iniciada no século XVIII, Verne foi um visionário.

Tido como um dos pais da ficção científica, profetizou o invento de uma dúzia de aparatos que, em um futuro recente, faria parte do cotidiano de segmentos distintos da sociedade, das agências espaciais às salas de estar da década de 50. Credita-se a Verne, além da antevisão da nave espacial e da televisão: submarino, fax, e viagens por vias subterrâneas e aéreas.

A aposta que desencadeou uma grande aventura

Phileas Fogg é um sujeito enigmático e discreto. Além disso, sua presença no rol de membros do Reform Club era a única coisa que o identificava como indivíduo da sociedade inglesa. A propósito, ele só participa de tal associação por recomendação dos irmãos Baring, banqueiros cuja casa de crédito abrigava uma voluptuosa quantia de Fogg. A origem da fortuna era desconhecida, mas as ações samaritanas, quase sempre anônimas, refutavam comentários maldosos. Fogg falava tão pouco quanto possível, com polidez e objetividade. Vivia em uma rotina rígida, ausentando-se de casa apenas para participar das atividades do Reform.

Verne foi um literato de escrita puramente descritiva e ao mesmo tempo ágil, de maneira que, em dez páginas de leitura, já podemos conhecer muito bem Fogg, o protagonista do romance. Os primeiros vultos de aventura nos são apresentados quando Jean Chavemestra, um francês de nascimento e inglês de formação, bate à porta de Fogg, sob recomendação do único e ex-serviçal do nobre londrino de Saville-row. O novo empregado chegara à casa correta. Tendo trabalhado de cantor ambulante a sargento dos bombeiros parisienses, ele procurava um ofício que lhe oferecesse tranquilidade. Pois bem, Fogg era pura exatidão e equilibrio - salvo algumas excentricidades -, patrão cujos maneirismos conservadores eram-lhe mui desejados.

Na escrita dessa breve análise, li não sei em que sítio que o Fogg da obra aqui analisada tinha um quê de niilismo. Buscas em minha memória parecem endossar o comentário lido. Realmente, Fogg é de um desinteresse por tudo, apesar de se engajar, se envolver quando necessário.

O autor francês imprime à história um ritmo alucinante quando, por volta da trigésima página, apresenta o detetive Fix. Desconfiado das movimentações financeiras e intenções de Fogg com a insólita viagem ao redor do planeta, ele persegue o viajante no trajeto, buscando tragá-lo.

Júlio Verne, aqui, arquiteta um delicioso romance de aventuras, cheio de reviravoltas, situações incríveis e belíssimas descrições, da Europa à América. É daquelas leituras clássicas obrigatórias, imprescindíveis.


Ficha técnica
Título: A Volta ao Mundo em 80 Dias
Autor: Júlio Verne
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 252
Ano: 1ª edição/1998

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Aprendendo a Viver

Clarice Lispector e o seu escrever não-ficcional

Aprendendo a Viver é uma seleção de crônicas de A descoberta do mundo, livro onde foram organizadas todas as crônicas de Clarice Lispector escritas para o Jornal do Brasil. Foi cronista do JB por exatos seis anos, entre 1967 e 1973, e chegou ao periódico a convite do influente jornalista Alberto Dines.

O leitor acostumado e familiarizado com as crônicas jornalísticas se depara, logo nos primeiros passeios de página, que, o que Clarice escreve e fala pouco se parece com crônica, uma espécie de texto que se aproxima do conto, mas é menor no tamanho, relata fatos sob uma ótica pessoal, mas dispensa confissões pessoais ou intromissões autorais que tomem as rédeas do escrito. Crônica é um gênero livre, carregado de subjetividade, não de pessoalidade.

Mas Clarice escreve sobre si mesma, de forma incrivelmente natural, tão natural e sincera que chega a reclamar com Rubem Braga, talvez o maior cronista brasileiro: “O que escrevo está se tornando excessivamente pessoal. O que é que eu faço?”. Ela é sincera e incontroladamente verdadeira no que relata. Em Aprendendo a Viver, nota-se um toque pessoal não meramente expositivo ou facilitador para a construção de cenários, fatos e acontecimentos. Aqui, a pessoalidade é pura, existencial e confessional em alguns momentos, como neste trecho do texto Anonimato: “... eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada”; e também neste, de O Grito: “Sei que o que escrevo aqui não se pode chamar de crônica nem de coluna nem de artigo. Mas sei que hoje é um grito! Um grito! De cansaço. Estou cansada!”.

A Clarice de Aprendendo a Viver fala sobre filhos, amigos, natureza, empregadas domésticas, conversas ao telefone, madrugadas de insônia e viagens que nunca fez. Isso mesmo, ela mente sutilmente em Minha próxima e excitante viagem pelo mundo, e aproveita o 1º de abril para mostrar seu humor fino, delicado e elegante: “Desculpem a brincadeira. Mas é que não resisti”. É um verdadeiro compêndio de várias situações vividas e sentidas por Clarice. Mas esta seleção de crônicas é especialmente marcada pelas situações sentidas.

Em muitas passagens, Clarice fala apenas sobre existência e viver. São textos que questionam, indagam e problematizam a vida humana e suas sensações, como o amor, o ódio e o desamparo. E ela também não se esquece de escrever sobre as aflições e destinos da alma. Aqui, Clarice se aproxima de Fernando Pessoa e ela confessa a influência literária do português no pequeno texto Fernando Pessoa me ajudando.

Em meio a sensações e dúvidas, ela também encontra espaço para escrever sobre o escrever. E então fala modestamente (mas apaixonadamente) daquilo que mais gosta de fazer, desde os tempos de menina, inclusive citando trechos de suas obras literárias. A escritora, em alguns textos, interrompe a si própria para fazer outra coisa, como atender um telefone ou tomar um café, e logo depois retorna para a máquina de escrever como se estivesse em um bate-papo online com o seu leitor. São textos desprovidos de tema, assunto norteador, aparentemente incompletos, pois são livres como a mulher que os redige. Para usar um termo da autora: Clarice escreve “ao correr da máquina”. Ela escreve e vive o que escreve. Ela vive escrevendo.

Aprendendo a viver é um trecho verdadeiro e relevante da vida de Clarice Lispector, um diário semanal que tem muito a revelar acerca da vida e dos sentimentos desta misteriosa e enigmática escritora. Muito, porém não tudo, fato atestado novamente no pequeno, mas belo Fernando Pessoa me ajudando: “Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum”. E, apesar da pessoalidade marcante, os textos foram publicados em jornal. Só o foram porque Clarice salta as barreiras do gênero crônica, e concebe algo que é somente dela, algo que não é gênero nem estilo e que nem ela busca definir ou explicar.

Porque Clarice é indefinível e puramente humana, uma apaixonada pelo viver e pelo aprender a viver. É edificante.


Ficha técnica
Título: Aprendendo a Viver
Autor: Clarice Lispector
Editora: Rocco
Páginas: 220
Ano: 1ª edição/2004


terça-feira, 19 de agosto de 2008

Reparação

Delicado, elegante, um belo romance sobre imaginação e literatura

Reparação (Atonement, em inglês) é um dos poucos casos em que um romance ganha uma adaptação cinematográfica à altura da qualidade do livro. O filme, que foi lançado nos cinemas brasileiros neste ano com o título Desejo e Reparação, ganhou 7 indicações ao Oscar 2008, e levou uma estatueta, na categoria Melhor Trilha Sonora. Tão aclamado na mídia britânica quanto o livro Reparação, a transposição para os cinemas abocanhou o BAFTA de Melhor Filme de Drama (em poucas palavras: o Oscar britânico) e apresentou o escritor inglês Ian McEwan – já querido na comunidade literária britânica - ao mundo.

O romance de McEwan foi publicado em 2001 e foi um fenômeno repentino entre público e crítica na Inglaterra. Recebeu elogios do impresso dominical The Observer (irmão do importante diário The Guardian), que considerou Reparação um dos 100 melhores romances já escritos, e também ganhou lugar no TOP 100 da revista Time. Pela mesma, foi considerado como o melhor livro do ano de 2001. Também foi agraciado com premiações literárias tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos.

A narrativa gira em torno de Briony Tallis, uma menina de 13 da classe média inglesa, ávida em encontrar atores para representarem seu recém-concluído drama feminino Arabella em Apuros. A menina Tallis, apesar de ainda criança, é uma escritora prodigiosa, que passou parte do verão de 1935 debruçada sobre sua pequena produção teatral. Tallis quer lançá-la na chegada de seu irmão Leon, mas precisa de atores. Os gêmeos Jackson e Pierrot e a irmã mais velha dos dois, Lola, são primos de Briony e estavam fadados a morar um bom tempo na casa dos Tallis, devido a problemas familiares com seus pais; lá estava o elenco de Arabella. Cecília (Cee) Tallis é a irmã mais velha de Briony e voltou recentemente de Cambridge, onde se formou em Literatura com Robbie Turner, filho de uma das empregadas da família Tallis; apesar da posição de servo, Robbie é muito querido pelo pai de Cee, Jack, que sempre investiu nos estudos do empregado.

McEwan constrói personagens de intelecto complexo, amantes de literatura, imersos em uma dimensão intelectual determinante para as reflexões levantadas pelo livro. Briony, Cee e Robbie mostram-se imersos no mundo da literatura, cada um à sua maneira. A narrativa de McEwan ganha intensidade quando Briony vê, da janela do quarto, Cee supostamente despindo-se diante de Robbie, e mergulhando no pequeno lago da fonte, à frente do velho casarão dos Tallis. O que parecia ser um ato de obscenidade era na verdade resultado de uma breve discussão entre Robbie e Cee, que culminou em um vaso – de valor sentimental para os Tallis – em pedaços, que caíram no lago da fonte.

Em mais dois instantes, a menina Briony tem contato com situações que exigiriam maturidade emocional e intelectual para completo entendimento do que estava acontecendo. Robbie amava Cee, e fora convidado por Leon para o jantar de seu retorno ao casarão. O jovem servo escreve uma carta desculpando-se, mas, no calor do verão, entrega-se a devaneios eróticos e escreve uma outra, obscena e indecente. Engana-se ao pegar a carta que entregaria a Cee no jantar, e pede que Briony leve-a a sua irmã. Briony espanta-se com o conteúdo do escrito, obviamente. Depois, a menina vê Robbie supostamente agarrando Cee à força na biblioteca da residência dos Tallis. Cee amava Robbie.

O terceiro engano da jovem escritora. Engano que resultou na prisão de Robbie e na ruptura emocional entre Cee e Briony. McEwan sustenta uma narrativa descritiva, com poucos diálogos, e consegue construir uma personagem, Briony, de enorme densidade psicológica. A história de engano e imaturidade serve a um propósito maior: o de expor a metamorfose de uma escritora infantil, que teve experiências adultas contemplativas capitais para o seu amadurecimento intelectual e literário. Nunca mais escreveria sobre jovens donzelas ingênuas e saltitantes. Briony, a partir de três incursões forçadas no mundo adulto, é inserida em uma nova dimensão de emoções e relacionamentos. Ainda assim, a imaginação da menina de 13 anos contribuiu de maneira pontual na desgraça de Robbie e Cee. McEwan traça, por meio de lindas passagens sobre culpa e engano, um grande drama emocional, mergulhado em insegurança e autocomiseração.

Os destinos de Robbie e Cee estariam fadados à destruição. O crime de Briony foi a omissão; e o castigo, que não veio das autoridades, ou de seus pais, foi alimentado por ela mesma. Reparar seus danos seria a tarefa de sua vida. E ela o fez por meio da literatura. É impressionante a maneira como o autor brinca com as questões de verdade e imaginação dentro da literatura, e a avassaladora relevância desses elementos na existência humana.

Apesar da qualidade da história, bem intrincada e desenvolvida com facilidade, o grande trunfo de Reparação é o trato com a narrativa. McEwan explora o mesmo acontecimento sob vários pontos de vista, dando à história uma dinâmica inesperada, que praticamente esgota o ocorrido que está sendo narrado. O valor de Reparação também reside nas questões levantadas por McEwan acerca do poder da literatura, poder este que é mostrado no brilhante final-surpresa (assunto previamente adiantado no parágrafo acima).

Best-seller na Inglaterra, Reparação é um notável exemplo de que romances comerciais também têm valor; e de que a literatura inglesa contemporânea está degraus acima da norte-americana.

Ficha técnica
Título: Reparação
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 444
Ano: 2002

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Carta ao Pai

A narrativa autobiográfica de Franz Kafka
que contextualiza e sedimenta toda a sua literatura

Desencanto. Não há outra sensação que se faça tão palpável, inerte e merecida ao se ler, em toda a sua inteireza, o que Kafka expõe na carta que escreve ao seu pai. Depois de um motivo aparentemente simples, a desaprovação paterna diante do noivado com Julie Wohryzek, em 1919, Kafka busca de forma talvez insana (talvez suicida, como preferirem), expor seus sentimentos e argumentos àquele que já se mostrara cristalizadamente silencioso, reprovador e insensível a ele, doloridamente, como pai.
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Seria reducionista acreditar que o que Kafka trata esteja contido simplesmente nas questões surgidas pelo noivado em si. Sua extensa e reveladora carta mostra que ele fez uso desse acontecimento para relatar com franqueza algo muito mais amplo sem, no entanto, diluir sua profundidade: a relação entre sua história e a história de seu pai. Mais do que simplesmente abordar a relação entre eles, Kafka contextualiza as minúcias entre as suas histórias, transpondo, de forma quase purulenta, as pessoas envolvidas no seu desabafo literário e autobiográfico. Ele apresenta as dores, as cicatrizes e os frutos da coexistencialidade entre o que compõe a sua própria vida – ser filho, homem, funcionário e escritor - e a interdependência disso tudo seu pai, como personagem e figura.
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A carta apresenta os fatos acontecidos desde a sua infância que foram formatando os sentimentos e as impressões que ele ia tecendo sobre seu pai, assim como também as experiências que marcaram e formaram o próprio Kafka. Algumas dessas experiências são relatadas de forma até pictórica, outras, de uma forma realisticamente crua. Durante toda a carta são relatados os ensinamentos (e os fracassos) paternais, assim como os apelos (e as fraquezas) filiais, tudo é narrado de forma tão clara e esclarecedora que fica explícito os motivos pelos quais a escrita kafkiana é encharcada de culpa, medo e solidão. Os significados levantados por ele que se desdobraram do seu relacionamento com o pai são múltiplos e multiformes, de tal forma que o próprio Kafka diz: “Minha atividade de escritor tratava de ti, nela eu apenas me queixava daquilo que não podia me queixar junto ao teu peito”.
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É bem verdade que a autoridade paterna é ingrediente recorrente na escrita de Kafka. Isso se percebe em suas grandes obras A metamorfose e O processo. Mas não se deve cometer o erro de superfaturar demais a figura e o problema paterno para o nascimento de um escritor tão genial. Nenhum escritor nasceria por uma questão exclusiva. Escrever é fenômeno, multifatorial, multisensorial, atípico e, ainda assim, deficiente e incompleto em si mesmo. Mais do que a figura paterna, seu pai era um judeu, localizado historicamente e repleto de cargas históricas. Mais do que um pai e um filho, havia ali duas gerações, dois judeus, dois homens, duas culturas, uma religião. Um comerciante e um advogado, um pai sem grandes complexidades e um filho inseguro e marcado pela angústia.
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Sua atividade de escritor, segundo ele, nasce não do pai, mas da impossibilidade de diálogo, da incompreensão, da necessidade de entender o inteligível, das queixas não faladas, dos problemas inerentes que esta figura paterna lhe causou. Um ponto, por exemplo, talvez não assinalado quanto ao contexto de Kafka e importante para a construção de seu repertório de sentimentos literários é a ausência de uma figura efetivamente materna em sua mãe, aliás, a gritante ausência de uma mãe naquela que era a sua figura materna. Não seria ela, talvez, a grande personagem que contribuiu de forma velada para tão forte sentimento de culpa? Não teria sido sua postura passiva a grande personagem nesse contexto que implantou, de forma silenciosa, o medo e a anulação em Kafka diante da figura de autoridade? Talvez sejam só divagações? Talvez...
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Acredita-se que a carta, com mais de uma centena de páginas, tenha sido escrita em apenas nove dias e tal foi seu envolvimento literário, apaixonado e pessoal que chegou a dispensar visitas. As características físicas da carta, com letras grandes e pouquíssimas correções, juntamente com outros fatos, apontam que, de fato, ele tinha interesse em enviar a carta. Seu desejo era sinceramente levantar pontos de diálogo e compreensão na busca de, clarificando sua relação com o pai, haver uma melhoria na relação dos dois. Mas o que se tem como fato é que a carta que hoje temos acesso nunca foi lida por quem de fato deveria.
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O livro apresenta uma argumentação, por vezes, poética, advocatícia (como ele mesmo diz) e extremamente pessoal. Vê-se nas letras alguém que sofreu, que ainda sofre, e que não deixa de assumir os próprios erros ao se abrir para uma conversa. De mãos desarmadas Kafka busca refazer uma história que, a despeito de todos os impedimentos e todas as impossibilidades, é, por si só, inaceitável no modo como se apresenta. Este livro apresenta em toda a sua plenitude a atmosfera em que vivia e escrevia Kafka, nada além da angústia diante do absurdo que é o existir.
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Ficha técnica

Título: Carta ao pai

Autor: Franz Kafka

Editora: L&PM Pocket

Páginas: 96

Ano: 1919; edição da editora, 2004.

domingo, 13 de julho de 2008

O Caçador de Pipas

Culturamente e historicamente interessante, dramaticamente convencional

Best-seller internacional, com mais de 8 milhões de cópias vendidas em todo o mundo (mais 1 milhão só no Brasil), o Caçador de Pipas foi o livro do momento entre 2005 e 2007 e ainda continua a emocionar o grande público com sua trama simples e facilmente digerível de omissão, culpa e redenção. Inicialmente publicado em 2003, sob a autoria do afegão Khaled Hosseini, a peça literária foi um estouro imediato nos Estados Unidos e terminou o ano de 2005 na terceira posição entre os livros mais vendidos.
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A história de O Caçador de Pipas se passa no Afeganistão da década de 70, que encarava o início da dominação soviética. Amir, um menino de classe média da tribo dos pachtuns, vive uma relação fria e difícil com seu pai, Baba. O garoto cresce com um sentimento de culpa constante em relação à morte de sua mãe, acontecida em seu parto. Seu melhor amigo é Hassan, um pobre analfabeto hazara, filho do empregado de seu pai. Apesar da posição superior, Baba tem enorme respeito por seus empregados e reserva um carinho especial por Hassan. O hazara tinha um lábio leporino (fissura que ocorre no lábio de bebês ainda em gestação) e Baba pagou uma cirurgia reparadora para seu humilde servo. Amir não via essa relação com ciúmes, pois era muito amigo de Hassan, e com ele construiu uma singela e profunda amizade. Sem a presença de um pai compreensivo e comunicativo, Amir encontra em um amigo e sócio de seu pai, Rahim Khan, a figura paterna de que precisava.

Na tentativa de chamar a atenção de seu pai, Amir entra no campeonato anual de pipas de Cabul, evento que marca o início do inverno na cidade. Seu amigo Hassan era um caçador de pipas, não participava da competição como os outros garotos da classe média de Cabul. Amir vence o torneio, finalmente ganha respeito de Baba mas sente a ausência de Hassan nas comemorações. Na busca por Hassan, Amir vê seu amigo ser violentado por Assef, temido garoto das redondezas. E ele nada faz para defender o pobre hazara e nem mesmo denuncia o grave ocorrido para ninguém. Hassan era um garoto de tanta singeleza e humildade, que ficou em silêncio, não acusou Amir de omissão e permaneceu passivo diante da humilhação, entregue às circunstâncias desfavoráveis de qualquer outro pobre servo hazara. Amir, ferido na alma por sua própria omissão, não consegue mais conviver com Hassan. Ele arma contra seu amigo, coloca um relógio sob o seu colchão e Baba, sem entender a suposta traição, despede seus servos.

Até aí Hosseini sustenta uma novela consistente e esclarecedora sobre as diferenças étnicas do povo afegão, através de uma bela história de amizade. Mas, quando o personagem de Amir se muda do Afeganistão para os Estados Unidos, fugido da invasão comunista soviética, o romance se perde em meio a tantas tentativas de emocionar o leitor com melodramas convencionais. Amir se casa, consegue levar uma vida de relativa estabilidade econômica na América e cuida de seu pai, que desenvolveu um câncer no pulmão, até à morte. O sentimento de culpa pela passividade diante da brutalidade vivida por Hassan acompanhou Amir até os Estados Unidos e o atormentou por longos 19 anos. No ano de 1999, Rahim Khan entra em contato com Amir e lhe relata a opressão social instaurada no Afeganistão durante todo esse tempo. Hassan e sua esposa foram assassinados pelo regime talibã, movimento reacionário rural que foi alimentado durante e após a dominação soviética. Khan revela a Amir um segredo familiar (previsível): Hassan era filho de Baba; Amir e Hassan são meio-irmãos. Sohrab, filho de Hassan, foi poupado pelos talibãs e mandado para um orfanato local. Surgiu a chance de redenção para Amir. Ele vai ao Afeganistão e, com enorme esforço, consegue adotar Sohrab e levá-lo consigo para os Estados Unidos.

No último parágrafo, desprezando por um instante as características históricas e culturais da narrativa, nota-se que a segunda parte do romance de Hosseini se assemelha incrivelmente a qualquer dramalhão tipicamente ocidental (estadunidense, mexicano ou tupiniquim). A história é emocionante, não nego o potencial do drama de arrancar algumas lágrimas ou sorrisos ao seu final. Mas quantos por aí, com muito menos, não conseguem o mesmo? Não critico a capacidade dramática de livro algum, só não compreendo a necessidade de alguns autores em recorrer a clichês tão batidos e previsíveis.
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O Caçador de Pipas poderia ser um livro irrepreensível em termos de referências histórias e complexidade das personagens, mas acabou sendo apenas um romance ocidental com cenário não-ocidental. Deve ser lembrado pela sensibilidade no trato com as questões étnicas, políticas e sociais do Afeganistão. Os relatos de uma Cabul feliz e pacífica, pré-comunista, nos ajudam a visualizar o mundo árabe com outros olhos, sem as lentes ideológicas racistas do imperialismo de Bush.

Para mais sobre o autor: Hosseini, das pipas às burcas

Ficha técnica
Título: O Caçador de Pipas
Autor: Khaled Hosseini
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 365
Ano: 2005, 1ª edição brasileira

domingo, 1 de junho de 2008

O Lobo do Mar

London demonstra um conflito inteligente e empolgante entre personagens, prendendo o leitor à escuna de Lobo Larsen

Jack London, é um conhecido escritor famoso pela sua habilidade de criar fantásticas aventuras em seus livros. Sua narração realista contribui muito para isto, tornando mais interessante e saborosa a leitura. A história de vida do autor se mistura com a de seus livros, já que o mesmo viveu envolto em viagens e turbulências que inspiraram seus livros. London carregava a aventura no sangue. Ao contrário dos autores comuns, preferia geleiras, alto-mar, florestas tropicais e outros perigos da natureza ao invés de frequentar bibliotecas e afins.Tal espírito de aventura se reflete por inteiro nos seus livros, nos quais é possível sentir todo o instinto de sobrevivência e o perigo eminente a cada novo capítulo.

"O Lobo do Mar" foi escrito em 1904, época em que London estava no ápice de seu processo criativo. O livro transcede os conceitos de romance histórico, ou ficção, ou aventura. London soube aplicar no livro, toda sua hábil narração. De forma que o leitor se sente envolvido, gradativamente, com a história com o passar das páginas.

O livro narra a série de desventuras que fazem com que, Van Weyden (no livro representado por um jovem acostumado com a vida na cidade, o conhecimento literário e as facilidades de sua vida), acabe parando em uma escuna pesqueira.

Em uma atmosfera completamente nova, Van Weyden sente as óbvias dificuldades de adaptação. Cercado por pescadores completamente cruéis e sádicos, tripulantes completamente apáticos e inescrupulosos e um capitão totalmente sádico e controlador, Weyden se vê obrigado a sobreviver dia-a-dia, travando batalhas psicológicas e físicas com o capitão e a tripulação.
É nesse aspecto que London demonstra sua clara influência de filósofos como Nietzsche, e grandes pensadores, como Darwin e Marx.

Nunca um personagem foi tão bem construído como Lobo Larsen, o capitão da escuna. Tal construção do personagem, faz com que, em alguns momentos, seja possível confundir as idéias de Larsen com a de London, parecendo que o autor fala através do personagem, transmitindo suas idéias. Em contrapartida, Van Weyden, representa as idéias do leitor, discutindo acirradamente com Lobo Larsen. Apesar de sofrer por não ter experiência, ou atributos físicos, Weyden se destaca dos outros tripulantes por seu conhecimento literário, chamando assim, a atenção do capitão. O que se lê por boa parte do livro, é a intensa batalha de personalidades e de diferentes formas de conhecimento, vindos de ambientes totalmente diferentes.

London quebra aqui, o estereótipo de que, um intelecto alto e princípios filosóficos, só brotam em mentes estudiosas e intelectuais. Com conhecimentos filosóficos e literários quase empíricos, Lobo Larsen debate com habilidade Van Weyden. Tais debates fazem com que os dois exponham seus ideais e valores, tornando-se quase amigos. Eu digo quase amigos pois, como dito anteriormente, a personalidade de Lobo Larsen é completamente instável, alternando momentos de profundo intelecto, com demonstrações de brutalidade, exercidas muitas vezes em Van Weyden. Por possuir uma personalidade tão tempestuosa, e um intelecto alto.

Lobo Larsen cria seus próprios conceitos sobre o que é certo ou errado. Sendo assim, comanda a escuna de um modo totalmente próprio, sendo muitas vezes, cruel. London volta a mostrar sua criatividade, pois com o avançar dos capítulos, e a sucessão ão de fatos, é possível sentir todo o peso de um convívio comunitário em alto mar e o cansaço de todos ao exercerem suas funções e ao serem comandados por Lobo Larsen. Além disso, há uma adição de uma importante personagem, aumentando ainda mais a tensão e desavensas entre os tribulantes e o capitão.

O Lobo do Mar é um livro para aqueles que buscam uma aventura inteligente, com personagens bem construídos e uma sucessão de acontecimentos, que cuminam em um final empolgante cheio de emoção e alívio.


Ficha técnica
Título: O Lobo do Mar
Autor: Jack London
Editora: Martin Claret
Páginas: 315
Ano: 1904; edição da editora: 2007

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Metamorfose

Uma ficção perturbadora e de íntimo estudo de personagem: a obra-prima mais popular de Franz Kafka

Foi o primeiro livro que li de Kafka e já fiquei maravilhado com a escrita do autor. Aproveito a empolgação e inicio, a partir de A Metamorfose, uma série de análises sobre as principais obras do tcheco: nos próximos textos, falarei sobre Carta ao Pai e O Processo. Para quem não conhece o célebre escritor, aí vai uma pequena biografia:

Nascido a 3 de julho de 1883 em Praga, atual capital da República Tcheca, Kafka foi educado na língua alemã, na qual foram redigidos seus escritos, e se formou em Direito, em 1906. No ramo literário, fez parte da chamada Escola de Praga. Suas principais publicações datam de 1913 a 1921: A Metamorfose, O Processo, O Castelo, América, A Sentença e O Artista da Fome. Kafka nunca alcançou sucesso com suas obras, só reconhecidas (e cultuadas) após a sua morte, a 3 de junho de 1924, na Áustria. Seu legado literário praticamente se confunde com os conceitos de literatura moderna: realismo acerca da realidade cotidiana industrial e burocrática, permeada de sutil humor e ironia, existencialismo e surrealismo, próprios da literatura modernista das primeiras décadas do século XX.

A Metamorfose é um relato em terceira pessoa de Gregor Samsa, um jovem caixeiro-viajante responsável pelo sustento de seus pais e de sua amável e singela irmã, Grete. Mal nos é revelado o nome do principal do livro e Kafka já nos apresenta um cenário aterrorizante: Gregor acorda metamorfoseado num terrível inseto. A narrativa prossegue sem explicar o porquê do acontecido; a história é desenvolvida com um detalhamento incrível e ao mesmo tempo gélido e sombrio. Gregor, sem condições de ir ao trabalho, fica em seu quarto, e, passado o trauma do reconhecimento do jovem por sua família, ele passa a receber alimento diariamente. Recluso, Samsa vive praticamente em cativeiro, isolado do convívio familiar. O ganha-pão foi metamorfoseado em um fardo desprezível de se carregar.

A frieza na narrativa de Kafka também se faz presente no caráter dos familiares de Gregor. O pai é o símbolo da autoridade quase que divina, intocável e intransponível. Ao ver sua família passar por dificuldades, após a metamorfose de Gregor, o antes aposentado pai volta a trabalhar. Ele é a figura de vitimização das dificuldades financeiras da família e o que desperta em Gregor um sentimento de culpa constante. A mãe, de início, demonstra um sentimento de comoção e pena para com Gregor; amedrontada pelas atitudes do marido e pela aparência monstruosa do filho, subitamente começa a vê-lo com extrema repugnância. Grete, a irmã de 17 anos, no começo de tudo era compreensiva e amorosa com o irmão, e levava alimento com um apreço fraterno inestimável. Mas o interesse material da família falou mais alto e ela arranja um emprego como secretária para ajudar nas despesas; os deveres e as obrigações domésticas a tornaram uma jovem mulher, que se esqueceu do pobre irmão e compartilha do mesmo sentimento odioso de seus pais. A ambição com o dinheiro era tamanha, que a família alugou um cômodo do imóvel e passou a despejar móveis velhos e outras quinquilharias no quarto de Gregor.

Kafka usa o cotidiano de sua época (corporativista e essencialmente urbanista), para mostrar a pequenez do ser humano diante de uma cultura industrial e consumista, onde os interesses comerciais não têm fronteiras e o homem é apenas força de trabalho, uma engrenagem para que a máquina funcione. Talvez isso explique a crueldade e a opressão com que Gregor Samsa é tratado em A Metamorfose. Observa-se na obra a falta de objetividade do enredo, de lição de moral ou de algum funcionalismo. A Metamorfose é, essencialmente, um livro realista - apesar do núcleo ficcional -, lúcido, de horror e desespero. Profundo e intrigante.

Ficha técnica
Título: A Metamorfose
Autor: Franz Kafka
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 96
Ano: 1912; edição da editora: 2008