Um sujeito da alta sociedade londrina (leia-se: inglesa) e o engajamento em uma aposta audaciosa - dar a volta do mundo em 80 dias -, compõem a premissa da aventura A Volta ao Mundo em 80 Dias, romance concebido pelo francês mais lido em todo o mundo, Júlio Verne. (E sim, os humanos lêem mais Verne do que Dumas.) Em meio à crescente urbanização de Paris e Europa, fomentada pela já madura industrialização iniciada no século XVIII, Verne foi um visionário.
Tido como um dos pais da ficção científica, profetizou o invento de uma dúzia de aparatos que, em um futuro recente, faria parte do cotidiano de segmentos distintos da sociedade, das agências espaciais às salas de estar da década de 50. Credita-se a Verne, além da antevisão da nave espacial e da televisão: submarino, fax, e viagens por vias subterrâneas e aéreas.
A aposta que desencadeou uma grande aventura
Phileas Fogg é um sujeito enigmático e discreto. Além disso, sua presença no rol de membros do Reform Club era a única coisa que o identificava como indivíduo da sociedade inglesa. A propósito, ele só participa de tal associação por recomendação dos irmãos Baring, banqueiros cuja casa de crédito abrigava uma voluptuosa quantia de Fogg. A origem da fortuna era desconhecida, mas as ações samaritanas, quase sempre anônimas, refutavam comentários maldosos. Fogg falava tão pouco quanto possível, com polidez e objetividade. Vivia em uma rotina rígida, ausentando-se de casa apenas para participar das atividades do Reform.
Verne foi um literato de escrita puramente descritiva e ao mesmo tempo ágil, de maneira que, em dez páginas de leitura, já podemos conhecer muito bem Fogg, o protagonista do romance. Os primeiros vultos de aventura nos são apresentados quando Jean Chavemestra, um francês de nascimento e inglês de formação, bate à porta de Fogg, sob recomendação do único e ex-serviçal do nobre londrino de Saville-row. O novo empregado chegara à casa correta. Tendo trabalhado de cantor ambulante a sargento dos bombeiros parisienses, ele procurava um ofício que lhe oferecesse tranquilidade. Pois bem, Fogg era pura exatidão e equilibrio - salvo algumas excentricidades -, patrão cujos maneirismos conservadores eram-lhe mui desejados.
Na escrita dessa breve análise, li não sei em que sítio que o Fogg da obra aqui analisada tinha um quê de niilismo. Buscas em minha memória parecem endossar o comentário lido. Realmente, Fogg é de um desinteresse por tudo, apesar de se engajar, se envolver quando necessário.
O autor francês imprime à história um ritmo alucinante quando, por volta da trigésima página, apresenta o detetive Fix. Desconfiado das movimentações financeiras e intenções de Fogg com a insólita viagem ao redor do planeta, ele persegue o viajante no trajeto, buscando tragá-lo.
Júlio Verne, aqui, arquiteta um delicioso romance de aventuras, cheio de reviravoltas, situações incríveis e belíssimas descrições, da Europa à América. É daquelas leituras clássicas obrigatórias, imprescindíveis.
Ficha técnicaTítulo: A Volta ao Mundo em 80 Dias
Autor: Júlio Verne
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 252
Ano: 1ª edição/1998




